segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Faça fortuna com ações antes que seja tarde - Décio Bazin e a sabedoria dos antigos



O livro, embora antigo, tem insights impressionantes sobre o comportamento do investidor e da bolsa de valores no Brasil. Um material escrito por um brasileiro há muito tempo atrás. Tempo em que o mundo - literalmente - era outro. E nisso reside seu maior valor.

Temos uma literatura abundante sobre mercado de capitais no exterior, mas a literatura brasileira é de uma pobreza franciscana. A maioria dos bons livros é recente.

Disso decorre a importância da obra de Décio Bazin. Embora trate de uma outra realidade, em que as negociações não eram eletrônicas, a sabedoria nele contida perpassa gerações e será relevante para todo investidor amador que deseja construir um bom patrimônio.

Eu gosto de conversar com idosos. Até quando falam bobagens ensinam. Ler o livro do Décio é como conversar com um senhor de idade - experiente -, que já viu muita coisa na vida e está disposto a ensinar os mais jovens. Quem não gosta de conversar com idosos não gostará de ler a obra de Décio Bazin.

1) Sobre a necessidade de tomar suas próprias decisões:


“Em matéria de dinheiro, na Bolsa como na vida, você está sempre só. Prepare-se para tomar atitudes sozinho e também para nunca repartir responsabilidades nem vantagem.
Quando eu era adolescente, tive um vizinho que muitas vezes me aconselhou a jamais confiar a terceiros a administração de bens patrimoniais. Certa vez ele incumbiu seu filho mais velho de administrar-lhe a fazenda de café, com poderes para comercializar as safras como bem entendesse. Pouco mais tarde percebeu que o filho lesava na prestação de contas.
Essa história encerra uma lição. Se não pode confiar nem no próprio filho, em quem confiar? A resposta é: em ninguém. O ser humano é fundamentalmente desonesto em assuntos de dinheiro. Os poucos que se imaginam honestos precisariam ser experimentados, mas experimentações costumam sair caro nesse campo. Dinheiro é preciso ganhar sozinho. E empregar sozinho” (Kindle, posição 1597)

Eu até arrepio quando leio essa passagem. É o obvio que precisa ser dito e repisado. Todo mundo conhece a história de alguém que confiou em um amigo, familiar, piramideiro profissional ou estelionatário e se lascou. 

Prepare-se para tomar suas próprias decisões e assumir as consequências. A solidão não é opcional. É a única certeza na jornada dos investimentos.


2) Sobre os analistas e especialistas de mercado:


“Desconfiamos quando os técnicos e teóricos “explicam” a Bolsa e fazem previsões de movimentos futuros. Eles protagonizam uma farsa que se destina a satisfazer vaidades ou simplesmente garantir empregos.
Há muito tempo os investidores da velha cepa aceitaram a verdade cristalina de que, para ganhar dinheiro na Bolsa, ninguém precisa conhecer mais do que as quatro operações aritméticas, como já dizia o escritor Gerard Harntzschel.
Por essas razões, se o leitor estiver começando agora a interessar-se pelo mercado acionário, sugiro-lhe que nunca preste atenção ao que dizem os especialistas e os técnicos; que não leia sequer o comentário diário que alguns jornais publicam sobre o Mercado; e que grave na memória que os que têm grande patrimônio em ações só leem o noticiário da Bolsa quando querem dar risadas”


Sensacional! Todos os investidores novatos deparam com notícias, dicas, comentários, enfim, há uma miríade de analistas e especialistas no assunto que só sabem viver de "vender cursos para ficar rico". Uns chutam que tudo vai desabar. Outros que tudo vai subir. Chutam toda semana. Uma hora acertam. É como diz a lenda: “os economistas acertaram 5 das últimas 9 recessões que previram”.

Quem prevê o tempo inteiro uma hora acerta. Mantenha a máxima distância possível de sites que recomendam carteiras semanais, mensais, diárias e sei lá o que. Só tem como propósito estimular o giro de patrimônio e ganhar corretagem de investidor trouxa.

3) Sobre o papel da CVM, bolsa e a mentalidade dos empresários brasileiros

“Nunca se viu a CVM empreender qualquer campanha eficiente de convencimento das empresas a democratizarem o capital. A abertura de mais empresas para a Bolsa em quantidade crescente é vital para a expansão e até mesmo para a sobrevivência do mercado acionário; teoricamente, atende aos interesses das próprias companhias.

Para que mais empresas se interessassem, seria necessário, numa campanha de longo prazo – não de afogadilho e só nas épocas de booms-, mudar a mentalidade de muitos dos nossos empresários, viciados de longa data em ganhar dinheiro graças à obtenção de favores governamentais, e conhecidos pela aversão que têm em dividir o lucro com outros sócios.
Convencê-los a abrir mão dos seus lucros não seria, porém, tarefa difícil, embora fosse demorada. Demandaria tempo inculcar neles o princípio de que o lucro tem uma finalidade social e não pertence a poucos, já que não estamos mais na Idade Média” (Kindle, posição 3941).

A crítica é direcionada, no início, à CVM, autarquia responsável pela fiscalização e controle do mercado de capitais. De fato, nunca vi nenhuma campanha publicitária, ainda que de pequeno porte, da CVM. Também nunca vi nada parecido por parte da B3. O problema deve estar comigo que quase não vejo televisão - rede aberta.

A B3 parece estar deitada eternamente em berço esplêndido, descansando no seu monopólio. Enquanto isso, empresas brasileiras começam a iniciar o movimento para abertura de capital no exterior. E o que a B3 fez para mudar esse quadro? Aparentemente, nada. Muitos brasileiros começam a constituir carteiras de investimento no exterior. O que a B3 e as corretoras fazem a respeito? Aparentemente, nada. Precisamos estimular a abertura de capital no Brasil. Talvez o único caminho seja acabando com esse monopólio da B3. 

Outra crítica sensacional é direcionada aos empresários brasileiros que têm extrema dificuldade em dividir o lucro com outros acionistas. Vou além: até hoje não consigo compreender o porquê de muitas sociedades empresárias “abrirem capital” oferecendo apenas ações preferenciais ou units, de modo a alijar o pequeno investidor dos mesmos tipos de ações de que os donos são portadores.

Uma crítica certeira é à dependência que grandes empresas no Brasil têm de favores governamentais. É antiga a relação de compadrio tupiniquim. A bolsa - empresário veio muito antes do bolsa - família. Algumas sociedades empresárias são quase capitanias hereditárias dos tempos modernos. Só funcionam por conta do auxílio do Estado. Só não vê quem não quer. .

4) Uma estratégia e a necessidade de não se importar muito com o mercado

“Comprar, comprar e comprar ações de empresas sólidas até alcançar o objetivo final, e ficar longe do agitado mundo da Bolsa e das suas más influências, eis o segredo.
É conselho prático, decepcionante pela sua simplicidade e que por isso mesmo as pessoas de mente complicada relutam em aceitar.
(...) A única realidade concreta do Mercado são as ações de empresas sólidas que o Investidor genuíno mantém em sua carteira para delas usufruir benefícios no futuro.
Muitos especuladores demoram anos para compreender essa verdade tão simples. Felizes daqueles que a compreendem a tempo de ter força e disposição para começar no caminho certo”

Comprar, comprar e comprar, todos os meses, independente se subiu ou desceu. Daqui eu tirei a certeza de que deveria manter minha “estratégia”. Trouxe-me paz e tranquilidade. Desde então descansei e desisti de tentar prever o futuro. 

Há várias estratégias de investimentos. Para tornar mais simples vou exemplificar duas. A primeira é a de "comprar e vender" quando há lucro; a segunda é "comprar, comprar e comprar" e manter o máximo de tempo o ativo na carteira. É possível, também, mesclar as duas.

Quem é bom em acertar o "tempo do mercado" - market timing - consegue bons lucros. Não é para mim - por falta de tempo e de capacidade. Desejo o máximo de tempo disponível e de paz na vida. Investir todos os meses em alguns ativos pré-selecionados é mais fácil e proporciona mais tranquilidade. Além disso, o aporte mensal cria um ótimo hábito de poupança. Só preciso escolher um dos ativos pré-selecionados - mais descontado ou desvalorizado -, respeitando o limite máximo de 2% do patrimônio total por ativo. 

Inicialmente, minha meta principal era de conquistar uma renda passiva mensal. Daí a alocação em FIIs. Depois investi em algumas ações. Pretendo manter, por mais um tempo, o investimento em FIIs e ações, até atingir um certo patamar. 

Um ETF de FIIs pagador de proventos é um sonho. Um ETF de ações que pagasse dividendos também não seria nada mal. Mas não temos esses ETFs no mercado de renda variável brasileiro - e viva a B3, gestoras e corretoras por não estimularem esse tipo de produto. Só gostam mesmo é de COE e day-trade.

É bastante provável que, no início de 2020, escolha alguns ETFs cumulativos - é o que temos para hoje - e comece a fazer a estratégia do "custo médio" - dollar cost averaging -, paralelo ao investimento em FIIs e ações. E, atingido determinado valor em patrimônio, inicie os investimentos no exterior.

Assim, terei uma carteira com ETFs brasileiros, ações, FIIs, ETFs e ações estrangeiras.

Esse é o plano de longo prazo, ao menor por ora.

E qual o seu plano?

Segue entrevista com a filha do Décio Bazin, disponível no youtube.

Um abraço e até a próxima,





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